Santos Populares na Madeira: junho de fé, música e tradição

Festa de Santo António

Em toda a Madeira e no Porto Santo, o mês de junho é sinónimo de festa em honra dos três Santos Populares. Em praticamente todas as paróquias, a quadra é assinalada com maior ou menor intensidade, mas há localidades onde, como diz o povo, a celebração é mais “rija”, marcada por grande participação popular, música, tradição e forte identidade comunitária.


Santo António

As celebrações em honra de Santo António arrancam oficialmente a 13 de junho, embora a festa comece vários dias antes com as tradicionais “novenas”, que se iniciam a 4 de junho e se prolongam até à véspera do dia do santo, a 12 de junho.

O “Santo casamenteiro” ganha especial destaque na freguesia de Santo António, onde a devoção se cruza com uma forte componente festiva. A igreja é cuidadosamente iluminada e as ruas envolventes são decoradas, criando um ambiente de arraial que envolve toda a comunidade.

Um dos pontos altos das celebrações é o concurso de marchas populares, que reúne grupos oriundos de várias freguesias da Região. Cada marcha apresenta coreografias e figurinos elaborados, inspirados na tradição e na cultura popular, acompanhados por quadras cantadas que dão voz à devoção e à sátira típica da época.

Entre as quadras mais populares, ouvem-se versos como:

“Santo António, Santo António
Ó meu Santo milagreiro
Arranja uma moça bonita
Para um rapaz solteiro.”

As festividades culminam no dia 13 de junho com a celebração religiosa e a procissão, que reúne centenas de fiéis.

Santo António, sendo a freguesia mais populosa da Madeira, com 27 437 habitantes segundo os Censos de 2011, assume um papel central nesta celebração. Mais recentemente, o desfile de marchas populares passou também a ter lugar na Zona Velha do Funchal, contribuindo para dinamizar o centro histórico e atrair residentes e turistas.


São João

São João é considerado o Santo Popular mais celebrado em toda a ilha, com as festividades a atingirem o ponto alto na noite de 23 para 24 de junho.

No Funchal, a animação concentra-se na Praça do Carmo, onde os conhecidos “Altares de São João” se tornam o centro das atenções. As ruas envolventes são decoradas e os estabelecimentos comerciais aderem à festa, servindo pratos típicos da época, como o atum com “semilhas” e as sardinhas assadas na brasa.

No passado, a Capela de São João da Ribeira, também no Funchal, foi um dos arraiais mais concorridos de toda a Região, reunindo largas centenas de pessoas em ambiente de grande devoção e convívio.

As festas de São João são igualmente vividas com intensidade no Porto Santo e no concelho da Calheta.

Na “Ilha Dourada”, as marchas populares são organizadas por grupos de diferentes localidades, como Campo de Cima, Campo de Baixo e Camacha, que se empenham na apresentação de quadras e coreografias alusivas às tradições locais, ao quotidiano e aos símbolos da ilha.

Entre os temas mais frequentes surgem referências aos fornos da cal, às conchas, ao mar, aos moinhos, ao bordado madeirense e às uvas do Porto Santo, produto emblemático da região.

“As uvas da ilha são um tesouro
De grande qualidade
Arrumadinhas em cestos
Eram levadas para a cidade.”

O Porto Santo, conhecido pelo seu extenso areal dourado com propriedades terapêuticas, conta com cerca de 5 500 residentes, mas recebe milhares de visitantes durante o verão, especialmente em agosto, período de maior afluência turística.

São Pedro

O último dos Santos Populares é São Pedro, celebrado a 29 de junho, considerado o padroeiro dos pescadores. As festividades decorrem com grande expressão na Vila da Ribeira Brava, em Câmara de Lobos e no sítio de São Pedro, em Santa Cruz, localidades com forte tradição piscatória.

Entre estas, destaca-se a festa da Ribeira Brava, que no passado chegou a atrair visitantes vindos do Funchal através de viagens marítimas em barcos de recreio. O arraial é conhecido pela animação musical, pelas marchas populares e pelo ambiente festivo vivido sobretudo na véspera de São Pedro.

A Ribeira Brava, elevada a vila em 1928, conta atualmente com 6 585 habitantes (Censos 2011) e é marcada pelo vale que a atravessa, com uma ribeira que nasce a mais de 300 metros de altitude e percorre cerca de 8 km até ao mar.

Em Câmara de Lobos, as celebrações de São Pedro associam-se também à Festa do Peixe-Espada Preto, juntando gastronomia, marchas populares, barracas de comes e bebes, fogo de artifício e espetáculos musicais.

Como não poderia deixar de ser, São Pedro também inspira as tradicionais quadras populares, que dão voz ao imaginário, à fé e ao humor característicos destas festas:

“São Pedro meu padroeiro
Trazes a chave na mão
Vê se encontras meu amor
Para abrir meu coração.”

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