Na Madeira existiam vários tipos de trajes femininos e apenas dois masculinos, com variações significativas entre freguesias, adaptando-se às condições sociais, económicas e geográficas de cada comunidade.
A origem e a evolução do traje tradicional da Madeira são ainda hoje alvo de diversas interpretações e teorias. Acredita-se que a sua formação resulte de múltiplas influências, tanto nacionais como estrangeiras, destacando-se contributos minhotos, mouriscos, africanos e flamengos. Esta diversidade reflete a história do arquipélago, marcado por contactos marítimos e culturais ao longo dos séculos, que contribuíram para a construção de uma identidade própria e muito característica.
Traje feminino
O traje feminino caracteriza-se, de forma geral, pelo predomínio da cor vermelha, símbolo de identidade e vivacidade cultural. Em locais como a Ponta do Sol, era comum o uso de capas diferenciadas: mulheres casadas e solteiras utilizavam capas vermelhas, enquanto as viúvas se distinguiam pelo uso de capas azuis.
No Funchal, Machico e Santa Cruz, predominava um conjunto de vestuário mais estruturado. A saia era geralmente de lã, podendo ser lisa ou listada, acompanhada por um colete e um corpete vermelhos. O conjunto era complementado por uma carapuça azul, conferindo equilíbrio cromático e forte identidade visual.
A evolução mais recente deste traje encontra-se nos Canhas (Ponta do Sol), onde se preservam formas mais antigas de vestuário, mais próximas das tradições originais do traje feminino madeirense.
Traje masculino
O traje masculino sofreu menos alterações ao longo do tempo. Era composto por calção branco com franzido ao nível do joelho, ajustado com elástico ou cós. A camisa apresentava pregas, variando o seu número e podendo ser simples ou bordada.
Nos períodos mais tardios, passou a ser utilizado um cinto/faixa de linho com pontas franjadas, colocado à cintura e descendo pela perna. No entanto, este elemento era sobretudo associado aos servidores de casas ricas, refletindo distinções sociais da época.
Tanto homens como mulheres utilizavam botas tradicionais conhecidas como botachas ou bota-chã, feitas em pele de vaca curtida. A parte superior era virada para fora, descendo até ao tornozelo e frequentemente decorada com uma fita vermelha.
Dança e música tradicional madeirense
Na Madeira, os bailados tradicionais caracterizam-se por ritmos suaves e movimentos relativamente lentos, associados ao clima e ao modo de vida da ilha. As danças variam de freguesia para freguesia, mantendo, no entanto, uma origem comum e traços semelhantes.
Em algumas localidades, dança-se apenas ao som da música instrumental; noutras, dança-se e canta-se simultaneamente, criando uma forte ligação entre expressão musical e coreográfica.
Durante as romarias, é comum a execução de trovas tradicionais acompanhadas por instrumentos típicos como o machete, o rajão, os ferrinhos, os braguinhas, os pandeiros, as gaitas de foles e a viola de arame, considerada um dos instrumentos mais antigos da tradição madeirense.
Danças típicas
Chama-rita
A Chama-rita é uma das danças mais conhecidas da Madeira, também presente nos Açores e no Brasil, onde surge em festas como a de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, sob a designação de “reinal de chamarrita”.
Enquanto nos Açores e no Brasil é dançada em pares, na Madeira assume uma forma distinta: é executada individualmente, com os dançarinos dispostos em filas, seguindo uns atrás dos outros em passo lento e ritmado.
Charamba
O Charamba serviu de base a muitas cantigas tradicionais madeirenses ligadas ao trabalho agrícola, como as do trigo, da erva e da carga. Existem três variantes principais desta expressão musical:
- Charamba clássico: é a forma mais antiga, com ritmo pouco marcado;
- Charamba dos velhos: apresenta andamento lento e é preferido pelas pessoas mais idosas;
- Charamba pelo meio: tem um ritmo mais vivo, sendo o preferido dos mais jovens.
Como exemplificação desta tradição oral, apresentam-se alguns versos:
“O charamba foi às lapas
E a mulher aos caranguejos;
As filhas ficam em casa
Dando abraços e beijos”
Mourisca
A Mourisca madeirense terá chegado à ilha tanto por via direta, através de contactos com o norte de África (nomeadamente por escravos provenientes de Marrocos), como por via indireta através do continente português. Nas noites de Machico e do Funchal, era concedida alguma liberdade aos escravos, permitindo que os seus cantares fossem ouvidos e progressivamente integrados na cultura local, contribuindo para a difusão desta expressão musical.
Bailinho das Camacheiras
O Bailinho das Camacheiras é uma das danças mais emblemáticas das festas e romarias de verão na Madeira. Caracteriza-se por ritmos alegres, forte dinamismo e movimentos de rodopio, sendo frequentemente associado a influências algarvias na ilha. O grupo da Camacha é hoje um dos principais embaixadores desta tradição.
Exemplo de versos tradicionais:
“As meninas da Camacha
Quando não têm que comer,
Vão à serra apanhar lenha,
P’rá cidade vir vender.As meninas da Camacha
Não comem senão feijão,
Para ajuntarem dinheiro
Para saias de balão.”
















